Caiu no Enem 2026: exame citou Lei Rouanet, MST e a importância do voto
Tema da redação convida a discutir a desvalorização do SUS também, diz professor A prova do primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, ap...
Tema da redação convida a discutir a desvalorização do SUS também, diz professor A prova do primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, aplicada neste domingo (8), trouxe questões sobre a Lei Rouanet, a atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), terras raras, inteligência artificial e direitos das mulheres. Também apareceram discussões sobre os impactos ambientais da energia solar, a participação feminina na ciência, a proteção de crianças e adolescentes na internet e a resistência dos povos indígenas durante a colonização. Segundo professores ouvidos pelo g1, as provas de Linguagens e Ciências Humanas tiveram forte presença de temas sociais e contemporâneos, com questões que exigiam principalmente interpretação de textos e análise crítica. Caio Ferreira, especialista de Ciências Humanas do COC, avaliou que os conteúdos dialogaram entre as diferentes áreas do conhecimento e com assuntos da atualidade, mas permaneceram dentro do esperado para o exame. Os candidatos responderam a 45 questões de Linguagens e outras 45 de Ciências Humanas. O tema da redação foi “A valorização do Sistema Único de Saúde (SUS) como direito universal”. Veja alguns dos temas que caíram na prova deste ano: Lei Rouanet: infográfico sobre o impacto econômico da lei, estimado em mais de R$ 49 bilhões desde 1992. Guerra no Irã e Estreito de Ormuz: geopolítica internacional e importância estratégica da região. Ditadura militar: duas questões sobre o período, incluindo a música como forma de resistência ao regime. ECA Digital: proteção de crianças e adolescentes no uso da internet. Direitos das mulheres: voto feminino, participação nas Olimpíadas e desigualdade de gênero na ciência. Povos indígenas: resistência à colonização, preservação de línguas e tradições e valorização cultural. História do Brasil: Brasil Colonial, Segundo Reinado, Primeira República, Guerra do Contestado e movimento operário. Movimentos sociais e desigualdades: atuação do MST, capacitismo e lutas por direitos. Terras raras: distribuição de minerais estratégicos e fortalecimento dos países emergentes. Meio ambiente e sustentabilidade: mudanças climáticas, avanço do mar em Atafona, agroecologia e impactos dos painéis solares. Agricultura brasileira: produção de commodities para exportação, fome e financiamento de pequenos agricultores. Literatura brasileira: textos de Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e José Lins do Rego. Variação linguística: regionalismos e diferentes formas de expressão da língua portuguesa. Artes visuais: obras de Candido Portinari e conceitos como neoimpressionismo, neoconcretismo e figurativismo. Inteligência artificial: charge com uma crítica à relação dos seres humanos com a tecnologia. Reportagens do g1: textos sobre mortalidade infantil, a história de Tia Eva e a relação entre agronegócio e fome foram citados na redação e em questões objetivas. Veja abaixo os detalhes das questões e a avaliação dos professores sobre os principais temas cobrados no Enem 2026. Agência Brasil Lei Rouanet Uma das questões apresentou um infográfico sobre os impactos econômicos da Lei Rouanet, mecanismo de incentivo à cultura no Brasil. O material trazia dados sobre os investimentos realizados desde 1992 e os benefícios econômicos gerados. Segundo o infográfico, o impacto acumulado ultrapassou R$ 49 bilhões, e cada R$ 1 investido geraria um retorno indireto de R$ 1,59. A questão exigia a interpretação dos dados e a identificação da finalidade do infográfico, sem cobrar um posicionamento político sobre a legislação. Para Tamires Marcello, professora de Linguagens do Colégio e Sistema pH, a escolha do tema chamou atenção por ocorrer em um ano eleitoral. A professora ressaltou, porém, que a pergunta não tinha caráter polêmico e avaliava apenas a capacidade dos estudantes de interpretar as informações apresentadas. Voltar ao índice. Guerra no Irã e Estreito de Ormuz A geopolítica internacional apareceu em uma questão sobre o conflito entre Estados Unidos e Irã, com destaque para o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o transporte internacional de petróleo. O enunciado utilizava um texto da BBC que mencionava um navio que transportava informações para o Irã. Stephanie Oliveira, professora de Geografia do Elite Rede de Ensino, destacou a questão como um dos exemplos da presença de conflitos internacionais na avaliação. Para ela, a prova de Geografia foi mais difícil do que a aplicada no ano passado. Voltar ao índice. Ditadura militar Duas questões abordaram a ditadura militar brasileira. Uma delas tratava do papel da música como instrumento de resistência ao regime. A outra discutia o chamado milagre econômico, questionando os resultados do crescimento econômico daquele período e relacionando as políticas adotadas à crise enfrentada pelo Brasil nos anos 1980. “Não tivemos questões sobre a Era Vargas, conteúdo que costuma aparecer no Enem, mas houve duas questões sobre a ditadura militar. Uma delas tratava do papel da música como forma de resistência ao regime”, destacou Camila Feitosa, professora de História do Elite Rede de Ensino. Voltar ao índice. ECA Digital Uma questão trouxe um trecho do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), legislação voltada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. O texto abordava princípios legais relacionados à segurança desse público na internet. A pergunta exigia que os candidatos identificassem a função da linguagem predominante no trecho, caracterizada pela transmissão objetiva de informações. “O enunciado abordava as funções da linguagem, mais especificamente a função referencial, caracterizada pela transmissão objetiva de informações”, explicou Ana Cláudia Spirlandeli, professora de português da Escola SEB Lafaiete AZ. Voltar ao índice. Direitos das mulheres O exame abordou diferentes momentos da luta das mulheres por direitos, incluindo a conquista do voto feminino, a participação nas Olimpíadas e a baixa representatividade feminina na ciência. As questões discutiam obstáculos históricos à participação feminina em diferentes espaços da sociedade, além das desigualdades de gênero que persistem atualmente. Tamires Marcello, do Colégio e Sistema pH, destacou a recorrência de questões relacionadas às mulheres, à população negra e aos indígenas. Para a professora, a diversidade cultural foi uma das principais características da prova de Linguagens. Voltar ao índice. Povos indígenas Os povos originários estiveram entre os assuntos mais recorrentes da prova de Ciências Humanas, com questões sobre resistência à colonização, preservação de línguas e tradições e valorização cultural. Os textos abordaram a trajetória dos indígenas ao longo dos séculos, tanto na história do Brasil quanto no processo de colonização das Américas, destacando suas diferentes formas de resistência à dominação colonial. “A questão dos povos originários foi muito trabalhada. Esse foi um dos temas que mais apareceram”, afirmou Camila Feitosa, professora de História do Elite Rede de Ensino. Voltar ao índice. História do Brasil A História do Brasil predominou na prova, com questões sobre Brasil Colonial, Segundo Reinado, Primeira República, Guerra do Contestado, movimento operário e patrimônio cultural. Uma das novidades foi o uso do modelo testlet, em que um único texto serve de base para mais de uma questão. Um dos materiais, da historiadora Lilia Schwarcz, tinha 42 linhas e discutia a construção dos museus e a necessidade de questionar perspectivas eurocêntricas da história. O exame também abordou memória e patrimônio, incluindo questões sobre a cultura afro-brasileira e o Nordeste. “A prova não seguiu uma perspectiva positivista da história, centrada apenas em grandes acontecimentos e personagens tradicionais. Pelo contrário, valorizou diferentes sujeitos históricos, experiências e formas de resistência”, avaliou Camila Feitosa. Voltar ao índice. Movimentos sociais e desigualdades Uma das questões abordou a atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na oferta de cursos de formação e capacitação para pequenos agricultores. A questão 65 apresentava iniciativas de agroecologia desenvolvidas em áreas de atuação do movimento, como assentamentos rurais. O objetivo era relacionar essas atividades à autonomia dos trabalhadores, à produção sustentável e ao enfrentamento das desigualdades no campo. O enunciado também mencionava iniciativas de formação realizadas no Brasil e na Argentina. “A questão relacionada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) abordou a agroecologia como uma alternativa de produção sustentável”, explicou Altieris Lima, professor de Geografia da Escola SEB Lafaiete AZ. A prova também abordou o capacitismo, em uma campanha que criticava expressões como “João sem braço”, “não se faça de surdo” e “não se faça de cego”. Voltar ao índice. Terras raras Uma questão apresentou um gráfico com os países que concentram as maiores reservas de terras raras, minerais estratégicos utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos e em tecnologias de transição energética. A pergunta, de número 89, destacava a presença de países emergentes entre os principais detentores desses recursos. A resposta correta apontava para o fortalecimento do poder de negociação dessas nações no cenário internacional, diante da importância econômica e geopolítica dos minerais. Aline Ferreira, professora de Geografia do Curso Anglo, da Cogna Educação, explicou que a questão relacionava a distribuição dessas reservas às disputas geopolíticas e à possibilidade de os países emergentes ampliarem sua influência nas relações internacionais. “As terras raras têm uma importância estratégica para a economia global, comparável à que o petróleo teve ao longo do século XX”, afirmou Altieris Lima, da Escola SEB Lafaiete AZ. Voltar ao índice. Meio ambiente e sustentabilidade As questões ambientais abordaram mudanças climáticas, assoreamento, salinização, agroecologia e os impactos associados à energia solar. Uma das perguntas discutia os problemas relacionados ao ciclo de vida dos painéis solares, mostrando que, apesar de ser uma fonte renovável, a tecnologia também apresenta desafios ambientais. Outra questão abordou o avanço do mar em Atafona, no Norte Fluminense, e a situação de famílias que precisaram abandonar suas casas. O texto destacava não apenas as perdas materiais, mas também os vínculos afetivos dos moradores com os locais atingidos. “A questão ambiental voltou a nortear a prova do Enem”, destacou Stephanie Oliveira, professora de Geografia do Elite Rede de Ensino. Segundo ela, o exame relacionou sustentabilidade, atividades econômicas e justiça social. Voltar ao índice. Agricultura brasileira Uma questão discutiu a produção brasileira de commodities agrícolas voltadas à exportação e a permanência da fome no país, apesar da posição do Brasil entre os maiores produtores agrícolas do mundo. O texto abordava a contradição entre o peso do agronegócio na economia brasileira e as dificuldades de acesso à alimentação enfrentadas por parte da população. A questão pedia que os candidatos identificassem alternativas para enfrentar essa desigualdade. Stephanie Oliveira, professora de Geografia do Elite Rede de Ensino, avaliou que a pergunta exigia uma reflexão sobre o modelo de produção agrícola brasileiro e seus efeitos sobre o abastecimento do mercado interno. Voltar ao índice. Literatura brasileira A prova de Linguagens trouxe textos de escritores brasileiros, entre eles Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e José Lins do Rego. As questões exploraram a interpretação de textos literários e a identificação de recursos utilizados pelos autores. Também apareceram perguntas sobre estratégias argumentativas, que exigiam reconhecer como os textos sustentavam determinada ideia ou ponto de vista. Tamires Marcello, professora de Linguagens do Colégio e Sistema pH, considerou a prova relativamente tranquila em relação à extensão dos textos, mas destacou que algumas alternativas muito semelhantes exigiam atenção aos comandos das questões. Voltar ao índice. Variação linguística A diversidade da língua portuguesa apareceu em questões sobre regionalismos e diferentes formas de expressão. Uma delas abordou especificamente o português falado em Angola. A questão exigia que os candidatos reconhecessem características da variação linguística, diferentemente de outras perguntas da prova, que se concentravam principalmente na interpretação textual. Para Eloise Genaio, professora de Redação e Linguagens do Elite Rede de Ensino, essa foi uma das questões mais específicas da avaliação, justamente por abordar um conteúdo linguístico enquanto a maior parte da prova privilegiou a interpretação. Voltar ao índice. Artes visuais A prova trouxe duas obras de Candido Portinari: uma retratava dois palhaços em uma gangorra, enquanto a outra mostrava meninos jogando futebol. A questão pedia que os candidatos identificassem o que as imagens representavam. Outras perguntas apresentaram conceitos como neoimpressionismo, neoconcretismo e figurativismo, exigindo familiaridade com movimentos e manifestações artísticas. Para Tamires Marcello, do Colégio e Sistema pH, as questões de artes visuais estiveram entre as mais difíceis da prova de Linguagens, principalmente por apresentarem “nomenclaturas que podem assustar o aluno”. Voltar ao índice. Inteligência artificial Uma charge sobre inteligência artificial trouxe uma crítica à relação dos seres humanos com a tecnologia. A questão exigia que os estudantes interpretassem a mensagem e identificassem a crítica apresentada. A prova também abordou a relação entre futebol e capitalismo, além de diferentes discussões sobre transformações sociais e culturais. “Em Linguagens, considerei a prova de nível médio. Não apresentou tantas dificuldades, mas exigiu uma leitura crítica e atenta”, avaliou Eloise Genaio, professora de Redação e Linguagens do Elite Rede de Ensino. Voltar ao índice. Reportagens do g1 citadas Três reportagens do g1 foram citadas no Enem 2026. Uma delas, publicada por Roberto Peixoto, integrou os textos motivadores da redação sobre a valorização do SUS e apresentou dados da ONU sobre a redução da mortalidade infantil no Brasil. Nas questões objetivas, apareceram uma reportagem de Thais Libni sobre Tia Eva, fundadora de uma comunidade quilombola em Campo Grande (MS), e outra de Vivian Souza sobre a contradição entre os recordes do agronegócio brasileiro e a persistência da fome no país. Brasil reduz em 72% mortalidade de crianças menores de cinco anos desde 1990, aponta relatório da ONU Quem foi Tia Eva, fundadora do primeiro quilombo tombado no Brasil? Recordes no agronegócio e aumento da fome no Brasil: como isso pode acontecer ao mesmo tempo? Voltar ao índice. Sobre o Enem O Enem é a principal porta de entrada para o ensino superior, e permite ao candidato pleitear vagas em universidades públicas e privadas de todo o país. Mais de 5 milhões tiveram suas inscrições confirmadas para a edição, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame.
Fonte da Reprodução:
https://g1.globo.com/educacao/enem/2026/noticia/2026/11/08/caiu-no-enem-2026.ghtml